Chego em casa com vontade de escrever, ligo o computador
e logo me perco conferindo e-mails, sufocando meu movimento
inicial, perco a referência interna. Quantas vezes nos
vemos assim? Um ímpeto inicial e natural nos lança
para a busca e acabamos nos perdendo no caminho, distraídas
com mensagens na caixa de e-mails, controle remoto, promessas
miraculosas, seja lá o que for. No ímpeto ligado
às relações amorosas também pode
ocorrer algo parecido.
Vincular-se é uma exigência da estrutura humana,
não é só uma questão pessoal.
Mas culturalmente foram construídos muitos mitos em
torno da questão à qual nem sempre nos auxiliam
compreender. Entre encontros e desencontros – mais desencontros,
é verdade – muitas mulheres se perguntam como
viver um amor de verdade. Algumas dizem: "amor daqueles
de cinema". Mas esse é o amor de verdade?
Amor de cinema é beijo no ângulo perfeito, sinos
tocando, mulher maquiada ao acordar, homem sempre com um lindo
sorriso branco, aliás, amor de cinema também
nunca é homossexual, ou ao menos este não é
reconhecido como ideal. Não sobra espaço para
diversidade, afinal o que interessa é padrão,
modelo. É tanta idealização que ficamos
“destreinadas” para o real.
Estaremos prontas para sairmos do ideal e irmos ao "cara
a cara" com o real? Estaremos disponíveis para
a conexão mais profunda com o que somos, e não
com o ideal de mocinha ou mulher fatal? Haverá espaço
para viver minha afetividade e minha sexualidade ouvindo meu
referencial interno?
O contato consigo mesma é essencial para se partir
para qualquer encontro. É preciso se conhecer e se
reconhecer para ser inteira. Para não sair procurando
por aí o engodo da "cara metade". Se não,
a busca pelo amor vira uma caça e viramos a caçadora
que nem sabe para onde está atirando, muitas vezes
se apaixonando pelo ato da busca em si, perdendo de vista
o que se deseja nesse caminho.
Não somos qualquer coisa
- É essencial reconhecer: não vale qualquer
coisa, porque não somos qualquer coisa. Temos a exigência
de encontro real, de duas pessoas reais, que possam se sentir
plenas nesse encontro, mas que não são metade
fora dele. Amor que respeita a individualidade do outro, sem
transformar isso em individualismo, que se propõe a
estar junto reconhecendo o espaço de cada um. Amor
que só é possível se nos dispomos à
inteireza dentro e fora da relação.
Se não estamos inteiras, enviamos ao universo uma mensagem
de incapacidade que acaba se fortalecendo no cotidiano, são
as profecias auto-realizáveis. E acredite: nos tornamos
incapazes mesmo, atraímos companhias que não
nos permitem crescer, vivemos relações desprazerosas,
não conseguimos enxergar a beleza do outro nem ir em
busca do que seja realmente belo em profundidade, por ainda
não estarmos conectadas com nossas mais altas possibilidades
e nossa mais ampla beleza. O que também é diferente
de criar máscaras de auto-afirmação.
Não precisamos nos mascarar quando entramos em contato
com o quei já há
de belo em nós.
É preciso conhecer o que carregamos em nós para
reconhecer no mundo aquilo que nos corresponde ou não.
Caso contrário, vamos só acumulando desencontros,
mágoas, medos, tentando levar a diante um jogo que
diminui nossas possibilidades e as possibilidades do outro.
Com uma mudança de referencial, podemos enxergar a
relação amorosa de outra maneira: seja para
reconhecer que aquela proposta relacional não nos corresponde,
seja para perceber haver ali uma realidade mais preenchida
de amor verdadeiro do que nossas idealizações.
Às vezes já se está vivendo uma relação,
mas não se sabe se é por ali que a coisa deve
caminhar. Como saber se aposto ou não? Como saber se
minha insatisfação é fruto de uma idealização
que espera o outro perfeito ou se, de fato, não há
correspondência fundamental naquela relação?
É preciso ouvir pacientemente o chamado interno, se
lançar na realidade, vencer o medo desse mergulho,
pois, por mais belas que sejam as máscaras e mais perfeitos
sejam os sonhos, eles não têm o sabor real da
fruta na boca.
Temos a exigência de viver em totalidade nossas experiências,
nosso íntimo pede por intimidade com o outro. Mas para
isso, mulher, assuma e cuide desse sagrado espaço para
só então convidar alguém para comungar
dele com você. Intimidade com respeito, intimidade que
nos faz crescer, que nos permite amar pelo que somos e pelo
que o outro é, que não é perfeição
e nem nos faz metade.
Viver tal encontro não é ponto de chegada: é
preciso renovar dia a dia o contato consigo, não se
perder de vista, cuidar de seu espaço sagrado e do
espaço de intimidade criado na relação.
Encontrar-se não é simples meio para encontrar
o outro, mas é finalidade em si, que tem conseqüências
benéficas. Estejamos atentas ao mundo interno para
não deixarmos de lado o amor real por nós mesmas. |