A sociedade contemporânea levou a mulher à
desconstrução da sua identidade feminina. Além
dos diferentes papéis que lhe são impostos,
a mídia destaca um ideal de mulher que, para a maioria,
está distante de ser alcançado. Muitas atividades
físicas, e até mesmo a moda, apontam para um
perfil estético que distorce a imagem do corpo feminino.
Essas questões geraram a necessidade de a mulher buscar
uma alternativa que a auxiliasse no reencontro com o seu eu-feminino.
A dança oriental egípcia - a dança do
ventre, como conhecemos no Brasil - é uma técnica
de expressão corporal e artística, que permaneceu
através dos tempos, encantando pelo seu exotismo e
beleza, mas também pelos benefícios trazidos
as suas praticantes. Por ser uma dança extremamente
feminina e pela sua origem ritualística, trabalha aspectos
profundos da psique, resgatando o feminino primitivo, fundamental
para a mulher contemporânea.
No processo de busca do equilíbrio entre as aspirações
profissionais e materiais com o bem-estar individual, as técnicas
orientais vêm crescendo na preferência do público
por tratarem o indivíduo de forma holística
(corpo e mente). As práticas corporais orientais de
tradição milenar, e, entre elas, a dança
do ventre, trabalham pela respiração e movimentos
pélvicos, o equilíbrio das energias através
dos chakras, proporcionando uma série de benefícios
físicos e emocionais, inclusive a prevenção
de doenças psico-somáticas.
De origem remota, a Dança do Ventre é proveniente
do antigo Egito, surgida há 7.000 anos a. C. Segundo
a autora do livro “Dance e Recrie o mundo”, Luccy
Penna (1996), na sua origem esta dança tinha uma conotação
sagrada, era realizada em Templos em rituais secretos só
de mulheres, com o objetivo de reverenciar a deusa Ísis,
arquétipo da Grande–Mãe, que dava forças
e preparava as mulheres para a gestação e para
o parto. As atribuições artísticas da
dança só foram agregadas após a invasão
árabe ao território egípcio, misturando
as tradições e culturas dos dois povos.
A Dança do Ventre atravessou o tempo, agregou características
de outras vertentes, modernizou-se, mas os movimentos característicos
dos rituais primitivos e seus benefícios para a mulher
só se fortaleceram. Por isso, essa dança milenar
continua a ser procurada e desvendada por mulheres do mundo
todo em pleno século XXI.
A dança e nossa auto-imagem
- Por ser uma dança inclusiva, pode ser praticada por
mulheres de todos os tipos físicos e faixas etárias.
Entre os benefícios físicos e emocionais que
esta prática proporciona, destacam-se a melhora da
postura, a motricidade, o raciocínio e a coordenação.
Trabalha de forma lúdica diferentes cadeias musculares,
modelando o corpo, afinando a cintura e deixando-o mais feminino.
Através dos exercícios pélvicos, proporciona
uma melhora do metabolismo e uma sensação de
bem-estar.
Para identificarmos as influências da Dança
do Ventre na imagem corporal de suas praticantes, precisamos
entender, através de revisão literária
como se dá a sua construção. Entende-se,
assim, por imagem do corpo humano a figuração
de nosso corpo, formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo
qual o corpo se apresenta para nós. De acordo com o
autor do livro “A imagem do Corpo – As energias
construtivas da Psique”, Paul Schillder (1999), pode-se
chamar de imagem corporal, também, a imagem tridimensional
que todos têm de si mesmo, e esta deve ser desenvolvida
e construída.
A imagem corporal é uma das experiências básicas
na vida de qualquer um. É um dos pontos fundamentais
da experiência vital. Em qualquer atitude, desejamos
modificar a relação espacial do modelo postural
ou do esquema do corpo. Os objetos que usamos, as roupas,
as posturas corporais, os penteados que adotamos, alteram
objetivamente a imagem corporal, assim como a limpeza e a
higiene també m.
Os seres humanos são cercados por suas imagens corporais.
O uso de objetos e roupas é motivado pelo desejo de
superar a rigidez da imagem corporal.
Outro fator a ser considerado sobre a formação
da auto-imagem, é como os padrões de beleza,
que são culturais e sociais, interferem na formação
da imagem corporal. A mulher, quando percebe que seu corpo
não está ajustado ao ideal do corpo feminino,
na medida em que é internalizado, torna-o indiretamente
responsável por sentimentos de culpa, frustrações
e pelo aumento da ansiedade, segundo Luccy Penna (1989).
Toda a emoção modifica a imagem corporal: de
acordo com sentimentos, o corpo se retrai e expande. A experiência
do movimento, e principalmente da dança, leva o ser
humano a descobrir-se emocionalmente e, com isso, descobrir
a sua imagem corporal também (SCHILDER, 1999 ).
Pesquisando na prática
- A teoria Reichiana, de Wilhelm Reich, além de explicar
o funcionamento integrado do corpo e da mente na saúde
e na doença, também propõe uma metodologia
terapêutica que atua diretamente e conjuntamente sobre
as funções anatômica-fisiológicas
e psico-emocionais do indivíduo.
Seguindo o desenvolvimento da teoria Reichiana, de acordo
com Federico Navarro, no livro Terapia Reichiana I –
Fundamentos Médicos Somatopsicodinâmica (1987),
o sistema nervoso é o centro integrado de todas as
funções psicológicas, psíquicas,
corporais motoras, sensoriais, vegetativas, endócrinas
e metabólicas e, desta forma, atua como um elo entre
o resto do corpo e o psiquismo. Com isso, as perturbações
psíquicas estão associadas a alterações
funcionais do cérebro, que vão causar perturbações
emocionais e comportamentais, além de disfunções
corporais (couraças e doenças).
Vários estudiosos de terapias corporais descobriram
tratamentos eficazes através do mapeamento das emoções
com estudos corporais e exercícios. Nas terapias do
corpo, a ênfase é dada à expressão
somática dos problemas emocionais ou dos complexos.
Entre os tratamentos utilizados, a partir da II Guerra Mundial,
surgiram métodos mais dinâmicos de terapias,
e, entre outros movimentos que nasceram, alguns foram influenciados
pela dança. A bailarina Isadora Duncan, pioneira da
dança moderna, abriu caminho para a dança como
forma de expressão, e, juntamente com outras bailarinas,
foram responsáveis no reconhecimento da dança
como uma forma válida de terapia.
A construção da auto-imagem parte da imagem
do corpo. Para Schilder (1999), entende-se por imagem do corpo
a figuração de nosso corpo formado em nossa
mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para
nós.
A pesquisa que foi realizada como meu trabalho de conclusão
do Curso de Pós-graduação em Dança,
pela PUC-RS, 2004, demonstra que, antes da prática
da Dança do Ventre, 60% das entrevistadas tinham uma
imagem regular de seu corpo, influindo na opinião sobre
si como um todo. Para 85% da amostra, essa imagem se modificou
a partir do início das aulas de Dança do Ventre,
permitindo a 25% delas ficarem mais seguras sobre o seu próprio
corpo. Para um percentual de 95%, a imagem corporal melhorou
e, entre as melhoras observadas, destaca-se a correção
postural e características físicas e emocionais,
compondo uma nova auto-imagem corporal.
A construção da imagem corporal é integrada
pela personalidade do indivíduo. Uma boa imagem é
construída pelos conceitos positivos que se tem sobre
si. A pesquisa comprova as hipóteses de que, através
da Dança do Ventre, as mulheres ampliam conceitos de
beleza, corpo ideal e sensualidade. A partir de novos conceitos
sobre sua beleza singular, fortalecem a sua personalidade
refletindo na sua auto-imagem como um todo e, conseqüentemente,
na imagem do seu corpo, pois para 90% das entrevistadas essa
imagem se alterou com a prática da Dança do
Ventre.
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