Colocar a mochila nas costas e sair por aí, perdendo a noção dos dias, esquecer que tem casa, trabalho, rotina - ah, e como isso é bom! Viajar e abrir-se a tudo o que é novo! Conversar com estranhos, experimentar, se aventurar, observar sem julgamentos o que o mundo nos mostra...
É desse grande barato cósmico que nos fala a geógrafa Daiana de Costa, em relato especial para o Absoluta. Ela iniciou sua vida mochileira em 2006, partindo do interior paranaense, e via “busão”, van, tirolesa, caminhão e até a pé já esteve na Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Nessas andanças, chegou a se aventurar a escalar um vulcão, não sem antes passar uma noite e um dia numa rodoviária, e ainda ter que dormir naqueles bancos nada aconchegantes... “Nessas idas e vindas”, conta, “dei umas mochiladinhas por aqui. Floripa; Pico do Marumbi no litoral do PR; alguns cantos de São Paulo; Curitiba; Rio de Janeiro e outros lugares”.
Por tudo isso, esta andarilha se tornou moderadora da comunidade "Mochileiros na América do Sul" no orkut, onde ajuda o pessoal que quer viajar respondendo dúvidas, dando dicas, etc.
Acompanhe seu interessante relato.
 
Lições e encantamentos de uma andarilha

A proposta de falar das sensações e lições das minhas andanças mexe comigo bem lá no fundo, no mais profundo, na minha essência. Emociona-me profundamente. Resgato memórias, sensações, sentimentos. Eu, minha mochila e o mundo - o interno e o externo. Gosto de viajar com o corpo, a alma, o espírito. Viajar com o coração. Mochila nas costas, pé na estrada, vou seguindo caminhos e me tornando plena, inteira. A liberdade toma conta de mim. Me sinto em comunhão com o Universo, eu e ele, Um só.
Percorro o espaço geográfico pra ver (não só com os olhos do corpo físico) e sentir de perto toda a beleza e todo o encantamento dos lugares. Tantas cores, tantos sabores, tantos olhares. Quanta energia!
Foi com uma vontade gigantesca de explorar territórios e expandir meus limites internos que dei início a meu caminhar; e foi nas andanças que descobri a magia do mundo. Foi através delas também que me enchi de graça, de amor e de leveza. Perdi a noção dos dias e das horas - ah, e como isso é bom! Viajar e esquecer que tem casa, trabalho, rotina. Abrir-se a tudo o que é novo! Conversar com estranhos, sorrir, experimentar, se aventurar, observar sem julgamentos o que o mundo nos mostra...
As viagens me presentearam com irmãos de alma, reencontrei pessoas muito especiais, seres até então desconhecidos, mas com uma ligação espiritual de longa data. E foi através do caminhar que me abri ao Universo e abri as portas do profissional, do pessoal e do espiritual.
Identifico-me muito com uma fala do Antonio Skármeta que diz: "Ao voltar de uma viagem não sei se o mundo encolheu, ou eu é que cresci". Pois é. Eu também não. O que sei é que no dia em que aquela menina cheia de medos decidiu colocar uma mochila nas costas, enfrentar todo mundo e seguir rumo a Machu Picchu, seu mundo nunca mais foi o mesmo. Cada passo que dei foi um passo em direção a mim mesma. E continua sendo assim, não importa se eu vou pra cidade vizinha ou para o outro lado do mundo, todos os lugares têm algo a me ensinar.

Bem mais que o destino em si - A minha primeira viagem (prefiro chamar de mochilão) foi em 2006, queria conhecer Machu Picchu, no Peru. Estava cansada depois de cinco anos de faculdade, perdida e sem rumo. Nem sei direito o que me moveu a sair assim, mas tudo se alinhou perfeitamente para que eu fosse.
Pesquisei, montei um roteiro e fui. Andei no lendário Trem da Morte e conheci pessoas de uma humildade e sabedoria incríveis. Venci os limites que a altitude me impôs, os muitos medos que surgiram, o frio, a saudade de casa. Chorei muito quando vi que o único jeito de atravessar um rio era com tirolesa. Me senti em total comunhão com o Todo enquanto andava a pé na noite escura a caminho da cidade sagrada dos Incas. Aprendi a valorizar as coisas mais simples, a me entregar ao desconhecido, a confiar no que meu coração diz.
Deparei-me com o trânsito caótico de La Paz, com a beleza do lago Titicaca e das ilhas flutuantes de Uros. Com o quão aconchegante e charmosa é Copacabana; com toda a riqueza cultural de Cuzco e com toda magia e encantamento de Machu Picchu. E o pôr do sol no deserto de Atacama? As lagunas... Que mistura de cores! Tudo tão mágico que não havia medo que fizesse querer voltar.
Depois desse mochilão fiz outro, dessa vez para Argentina e Chile. Conheci Buenos Aires com seus belos parques, os cafés, tangos, sebos... Toda a beleza que Bariloche tem no verão, os lindos lagos, as muitas flores, as paisagens deslumbrantes. A pequena e encantadora Pucón, no Chile, e seus atrativos naturais - com direito a escalar vulcão e vencer o medo de altura. Dormi em banco de rodoviária. Ajudei colegas de quarto que estavam doentes, mesmo sem saber falar inglês. Conheci gente do mundo todo, descobri outras formas de me comunicar e vi que barreiras não existem, nós que as inventamos.
Depois de tudo isso, devo dizer que, mais que o destino em si, é o caminho percorrido até lá que traz a mudança. São as vivências diárias desse caminhar que nos modificam internamente e de uma forma que nem notamos, que só percebemos depois que o tempo passa, quando não nos enxergamos mais naquele modelo antigo que nos víamos.
Pecaria se escrevesse esse texto sem contar que, conversando com as estrelas, pedi inspiração e que no dia seguinte recebi um e-mail de uma irmã de alma, uma querida amiga-irmã que é puro amor e que agora está distante, percorrendo seus caminhos no mundo assim como eu trilho os meus. E como bem disse Rubem Braga, fica impossível abafar a "surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo". Eu amo cada pessoa que conheci e cada lugar que percorri.
E é assim, como uma andarilha que me reconstruo, renovo meu poder criativo e entro em contato com o meu estado mais pleno de felicidade.

 
Daiana de Costa
Bacharel e Licenciada em Geografia, estudante de Psicologia Transpessoal
www.daianacosta.blogspot.com
daiacosta@gmail.com
FRANCISCO BELTRÃO/PR
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