"O feminino oculto nada
mais é do que a fonte direta desaguando em tudo"
Sthan Xannia
Depois de tanto tempo escondendo as entranhas, quantas mulheres
atualmente deixaram de observar o fluxo e refluxo dos ciclos
do próprio corpo? Quantas deixaram de conectar-se com
as forças devastadoras e brandas da natureza, abandonando
o recolhimento, a contemplação, a profundidade
e a riqueza do momento da menstruação, do tempo
de Lua? Quantas de nós se esqueceram de se amar e de
amar ao próximo? Tantas que apostam que a felicidade
vem do parceiro ideal, do trabalho idealizado...
Estas deixaram de honrar seus caminhos sagrados e suas reais
habilidades e talentos, e, da mesma forma, a contraparte feminina
do homem vaga por entre relações vazias ou senão
amedrontadas.
Filhas e filhos de um sistema patriarcal que desconsidera
a mudança/processo/transformação; o mistério
e a beleza dos ritos femininos como parte do Todo.
Resultado disso é a supervalorização
do racional e conseqüente rejeição de tudo
aquilo que chamam de não-racional, como a intuição.
E esta era passada de mãe para filha, de geração
para geração, num poder de bênção,
garantindo o conhecimento dos Mistérios de Sangue.
Esse poder, que é a intuição, assume
a velocidade da luz conferindo visão interior, audição
suprafisica, percepção e conhecimento interior.
Mas este poder passou à sensação desmerecida
e, em seguida, foi soterrado pelo descrédito e falta
de uso.
O abandono desses valores psíquicos deu cabo aos ritos
de iniciação femininos. Transformaram os "misteriunns
continunn" em visões de aberrações,
onde a menstruação passou à vergonha,
a sexualidade para atos demoníacos, em seu pior significado,
a gravidez causa de morte de muitas mulheres, e o climatério
- momento de profunda sabedoria-, ganhou diagnósticos
de loucura.
Claro que hoje algumas considerações devem ser
feitas, a menstruação que era vergonha ganhou
remédio - suspende-se -, e a pressa agora é
para se tornar mulher; o sexo não é mais do
demônio, mas virou corriqueiro, sem cheiro, sem rituais,
sem perfumes, sem sabor e sem respeito; a gravidez, para muitas
que cresceram rápido, sem se dar conta da fase em que
estavam iniciando, virou medo e depressão pós-parto;
e no momento de sabedoria do climatério, a mulher que
antes tinha pressa para ser mulher, agora tem vergonha da
"barriguinha" que apareceu com a idade e a Donzela
enclausurada prefere o corpo sarado da menina de 18 anos e,
desta forma, melhor retardá-lo, com injeções
de hormônio, para ainda despertar interesse no sexo
oposto pelos feromônios e não pelo enigmatismo
e sabedoria adquirida.
Esta ênfase no racionalismo e a cisão de um relacionamento
autônomo com o Divino, com o espírito, serviram
para separar a mulher de um relacionamento profundo com seu
ciclo menstrual. Grande parte da força psíquica
da mulher está ligada aos seus ciclos - os mistérios
de sangue -, e, se ignorarmos este período e falharmos
no reconhecimento de seu enorme valor, perderemos o contato
com a riqueza da experiência feminina, afinal, um dos
privilégios de ser mulher é o acesso a outros
mundos, que se torna mais evidente durante o período
pré-menstrual e a própria menstruação.
Este limiar abre a mulher para as suas próprias habilidades
psíquicas.
Processos dolorosos de ser mulher
- O Sangue está intrinsecamente ligado às emoções,
o nosso o oceano interno. E o lidar de forma aberta e clara
com essas emoções, se formos analisar pelo viés
arquetípico/mitológico, foi colocado embaixo
do tapete. No caminhar da mitologia, as Deusas encerravam
nelas mesmas, a parte s uperior
e inferior, morte, renascimento, criatividade, combatividade,
ou seja, todos os possíveis atributos mas, com a dominação
das tribos de visão de mundo pessimista, tudo que era
Solar, "acima" foi deposto e passado para figuras
masculinas. Claro, mais tarde eles ganharam irmãs e
primas Deusas, e se fossem amantes, desciam: submundo!
Os ritos de passagem trazem uma descrição que
enfatiza tanto a força física como o desenvolvimento
de caráter. Em linhagens antigas, era considerado importante
que uma mulher fosse capaz de demonstrar sua capacidade para
a paciência e a perseverança. Este tipo de ensino
parece bastante adequado e não existe em nosso mundo
moderno. Ao contrário, a iniciação de
nossas meninas mostra-se bem superficial e frágil:
aprende-se a tomar anticoncepcional, usar o primeiro sutiã
e o tampão pela primeira vez. Resultado disso, mulheres
se casam e engravidam sem ter qualquer noção
de sua própria capacidade de resistência, física
ou psicológica. E, claro, assim, muitas optam por dar
à luz com auxilio de analgésicos e de uma tecnologia
que lhes privem de experimentar a sua própria força,
e, mais que isso: privam seu rebento de vir ao mundo realmente
querendo nascer e tendo sua primeira experiência de
sobrevivência. Esta ausência de desafio e fortalecimento
na puberdade pode também contribuir para a falta de
auto-estima que aflige tantas jovens e provoca distúrbios
e vícios alimentares.
Para a maioria das mulheres, a raiz da sua infelicidade está
em um relacionamento doloroso com os processos de ser mulher.
São treinadas para não transparecer que estão
menstruadas. É preciso entender que, quando a o útero
e a menstruação são vistos apenas como
uma necessidade biológica desconfortável, a
auto-estima das mulheres é correspondentemente baixa.
Infelizmente, o valor que atribuímos à nossa
menstruação está direta e proporcionalmente
ligado ao valor que relacionamos a nós mesmas enquanto
mulheres.
Então, sentir dores ou não, vai depender se,
durante os dias que se seguiram à ovulação,
você se permitiu morrer diariamente. Se, ao final do
dia, você apagou os registros que não lhe serviram,
se você, se nós soubemos transmutar o desentendimento
no trabalho, a briga com o companheiro (a), com a família,
enfim: o importante é saber se perceber. Nisso, a Deusa
Ártemis tem muito a nos ensinar, pois a liberdade por
ela pregada diz da liberdade sobre nossos corpos, e isso acontece
quando sabemos exatamente aquilo que se passa em nosso submundo,
nas nossas relações e, ainda, de compreendermos
que a forma que usamos para lidar com isso afeta tudo a nossa
volta.
Além do mais, existem fatores patológicos, falta
de cálcio, disfunções hormonais, má
alimentação... mas fica a pergunta: onde tiveram
inicio essas desarmonias? Ou seja, feridas não resolvidas
e, muitas vezes, nem mesmo percebidas e aceitas. E nelas incluo
as feridas hereditárias, vindas de nossos antepassados.
Isso baixa a imunidade, isso causa problemas ginecológicos,
câncer e uma série de caminhos doloridos.
Contudo, como sempre observou Jung, nada na psique se perde,
segundo ele, podemos ter a confiança de que tudo o
que foi perdido durante o caminhar ainda esta lá.
Precisamos ouvir a Velha guardiã da sabedoria interna,
aquela que traz consigo toda a sabedoria celularmente intrínseca
para o resgate sadio na nova mulher planetária.
É urgente adquirir respeito pela revelação
pessoal, espiritual e dos ciclos femininos, que são
a representação micro da ciclicidade macro de
Gaia. A característica mutante da mulher presente desde
a pré-história revela, hoje, ser a grande chance
para a reintegração das perspectivas femininas
no pensamento da corrente dominante. E é claro que
consciência ecofeminista é a via política
e ativista para garantir a consciência dos ciclos femininos.
A menstruação é parte integral do desenvolvimento
da espiritualidade das mulheres, tanto no plano individual
como no coletivo. Para as mulheres, enquanto indivíduos,
a valorização do poder da menstruação
é fundamental para a nossa capacidade de atingir essa
"Velha que sabe", essa Deusa Interior. E, ainda,
um respeito que promova a imparcialidade pelo feminino em
todas as suas ramificações e manifestações,
o que significa dizer que se estendem também ao lado
feminino dos homens, tão carentes quanto as mulheres
de reconhecimento da sacralidade feminina. Reconhecer-se assim
trará noção de Totalidade, de santidade
para você, para o outro, para o mundo.
"Quando menstruo, fica instaurado
o meu tempo sagrado de mulher!" |