Nascimento… Palavra que suscita memórias, momentos fortes,
início da vida... Todos fomos bebês um dia, passamos do ventre
ao mundo externo. Alguns nasceram facilmente, outros com muita
dificuldade. Cada nascimento é uma história única, singular,
nenhum nascimento é igual ao outro, assim como nenhum ser
humano.
Ao longo da história da humanidade, as formas de parir vieram
mudando, recebendo interferências de toda a tecnologia criada
pelo homem civilizado. Em tempos remotos, qualquer problema
durante um nascimento poderia significar a morte da mãe e/ou
do bebê, muitas vezes apenas um poderia sobreviver a determinadas
complicações. A tecnologia veio para minimizar a quantidade
de mortes, a medicina entrou no mundo dos nascimentos para
poder garantir a segurança de mães e bebês.
No entanto, após séculos de desenvolvimento tecnológico do
meio médico, o excesso de tecnologia, em nome da segurança,
acabou por afetar muito a qualidade dos nascimentos. A naturalidade
perdeu-se e os partos deixaram de ser eventos fisiológicos
e passaram a ser eventos médicos, a parturiente deixou de
ser ativa e se tornou paciente. O parto "normal" se tornou
raro e o normal se tornou o parto por cirurgia cesariana.
Todas essas modificações tiveram enorme peso sobre a forma
de ser mãe. A gestação e o momento do nascimento do bebê são,
para a mulher, um processo de muitas mudanças. Todas as alterações
fisiológicas e psíquicas que advêm da gestação e do parto
traduzem o trabalho da natu reza de preparação da mãe que está
por vir. Fisiologicamente, o corpo da mulher grávida recebe
uma grande dosagem de hormônios que preparam o corpo para
o desenvolvimento e nascimento do bebê. O corpo da mulher
se torna mais flexível. No entanto, existe uma conexão entre
o corpo humano e o psiquismo, a mente, as emoções. Tudo o
que acontece com o corpo está intimamente ligado a estes âmbitos.
Logo, todas as alterações fisiológicas que ocorrem na gravidez
falam também de alterações psíquicas, emocionais. A flexibilidade
do corpo também está presente psiquicamente, o inconsciente
fica mais acessível à consciência, a percepção fica mais refinada,
a sensibilidade se aguça.
A gestação de um filho traz para a mulher um estado psíquico
mais regredido, é como se ela pudesse se conectar novamente
com seu lado infantil. Simbolicamente, a criança gerada dentro
dela a conecta com a criança que ela também foi e que, em
algum nível, ainda está presente. Passar por este estado comumente
traz lembranças, memórias infantis, e o próprio ambiente familiar
pode servir de motor para "desenterrar" memórias da futura
mãe: conversas sobre bebês, sobre educação, sobre a relação
mãe-filha, pai-filha, irmãos. A gestante pode entrar em contato
com diversas lembranças que talvez estivessem guardadas e
esquecidas há muitos tempo. A natureza, em sua sabedoria,
proporciona essa flexibilidade psíquica e maior sensibilidade
para que a mulher possa ser uma mãe melhor. Ao olhar para
o passado, lembrar de sua infância, de como foi sua experiência
de ser filha, a mulher pode transformar sua vida, fazer novas
escolhas, resignificar seus traumas, suas crenças e sua experiência
de vida.
No entanto, com toda a correria de nossa sociedade, é muito
comum as mulheres passarem o período de gestação de forma
atribulada, pensando mais nas questões do bebê ou nas condições
externas do que no seu próprio processo enquanto gestante.
O parto é um momento de ápice nesse proce sso, o momento em que ela vai se
deparar definitivamente com a maternidade. A preparação para
o parto comumente é restrita a procedimentos técnicos, como
o pré-natal médico, que trata mais das questões fisiológicas,
e a escolha da maternidade. O número de mulheres que passam
por uma preparação profunda para o momento de parir, englobando
aspectos, físicos, emocionais, espirituais, ainda é muito
reduzido.
O que é preparação para um parto
consciente? - Como falei antes, a presença do bebê
no corpo da mãe modifica toda a fisiologia, traz a liberação
de uma série de hormônios. O ápice da produção hormonal acontece
exatamente durante o trabalho de parto. O momento do nascimento
tem um potencial muito transformador para a mulher, exatamente
por ser o clímax do rito de passagem que é a gravidez, o instante
em que efetivamente a mulher se torna mãe, o bebê deixa de
ser interno, se separa da mãe. Neste momento, o corpo está
inundado de hormônios em uma dosagem que em nenhum outro ciclo
ocorre na vida de um ser humano, e pode-se dizer que durante
o trabalho de parto, imersa nessas alterações químicas, a
mulher está em um estado alterado de consciência.
Se você perguntar a qualquer mulher que tenha parido um filho,
ela dirá sobre este estado e muitas vezes ele fica claro para
quem está acompanhando o processo. Este estado faz parte dessa
sabedoria da natureza, é o momento do nascimento do bebê e
da mãe. Quanto mais a mulher estiver consciente e presente
em si no momento do parto, maior a possibilidade de este ser
um evento profundamente transformador para ela. Muitas mulheres
relatam que o parto foi uma virada em suas vidas, um momento
em que puderam se conectar pela primeira vez com sua força,
com sua feminilidade.
Por isso a preparação é tão importante.
Não apenas pelos cuidados com o bebê, que merece vir ao mundo
com todo o respeito e amor, mas também pela mulher, que assume
um novo papel, que nasce como mãe. Mesmo que ela já tenha
tido um filho antes, a cada gestação novas transformações
acontecem, é um ser diferente dentro dela, e ela também terá
que renascer como uma nova mãe. A preparação para um parto
consciente é a preparação para ir fundo neste processo de
parir, para estar ali com totalidade, presente em todos os
sentidos e escolhas, ampliando a percepção, sentindo com o
corpo inteiro.
Um dos principais entraves à vivência plena do momento do
parto é a desconexão com o corpo. A grande maioria das pessoas
tem uma relação distante com o próprio corpo. A musculatura
em geral está muito tensa, contraída, como reação defensiva
crônica ao estresse em que vivemos. Essas tensões crônicas
modificam completamente nossa percepção e sensibilidade corporal.
Quando sentimos dor, a primeira reação é contrair o corpo
para que a dor desapareça mais rápido. No entanto, no momento
em que contraímos, a dor se intensifica. É um paradoxo, mas
assim fazemos inconscientemente em diversas situações de nossas
vidas, não apenas em relação à dor física. Se estamos com
raiva, nos contraímos para suportá-la, se estamos tristes,
nos contraímos para não chorar, e assim seguimos.
No momento do parto, todas as crenças que nossa sociedade
alimenta relacionadas à dor podem surgir, todos os medos da
mulher podem vir à tona. A primeira reação será a de contrair-se.
No entanto, o corpo trabalhou durante toda a gestação para
abrir-se e flexibilizar-se exatamente porque isso é necessário
para que o bebê nasça. Todo esse trabalho da natureza vai
por água abaixo quando a mulher se deixa levar por medos e
crenças negativas. Sem a consciência de como tudo isso afeta
o seu corpo, fechando-o, tensionando-o, a mulher possivelmente
enfrentará um trabalho de parto difícil, doloroso, talvez
até problemático. Quanto mais ela estiver consciente e conectada
com seu corpo, percebendo se há tensões, utilizando-o de forma
a permitir que ele faça o trabalho dele, melhor será para
ela e o bebê.
Repetimos fórmulas sem termos consciência
do que estamos fazendo - A ampliação do nível de consciência
geralmente acontece com um treinamento, e o fato da mulher
estar mais sensível na gestação favorece a que ela consiga
perceber as coisas mais rapidamente e facilmente do que talvez
acontecesse se não estivesse grávida. Por isso, preparar-se
para o parto ao longo da gestação poderá fazer toda a diferença.
Se a mulher puder se conectar mais com seu corpo de forma
consciente, se puder tomar consciência dos medos que estão
presentes em sua subjetividade, como eles aparecem em seu
corpo, se puder ir limpando todas as questões que possam ter
sido traumáticas para ela, tudo isso poderá ser de grande
valia para que a gestação e parto possam ser mais conscientes
e plenamente vivenciadas pela mulher. 
Muitas questões relacionadas à figura da mãe podem surgir
durante a gravidez, a forma como fomos criados por nossas
mães terá grande influência na forma como seremos mães. Há
uma forte tendência em repetirmos muito do que vivenciamos
com nossas mães, e geralmente isso acontece sem que tenhamos
consciência. Outras vezes, pode ser que aconteça de fazermos
tudo ao inverso do que nossas mães faziam. Não há nada de
errado em fazer algo igual ou diferente do que nossos pais
faziam, o problema está no fato de que muitas vezes repetimos
as fórmulas sem termos consciência clara do que estamos fazendo,
de que essas são realmente as escolhas que queremos fazer.
Cada criança é um indivíduo diferente, único, e o perigo da
repetição inconsciente é que o que fazemos pode não ser o
melhor para aquele bebê, aquela criança, pois é um contexto
novo.
Além disso, quantas vezes agimos sem consciência exata do
que estamos escolhendo fazer e depois vemos que poderíamos
ter escolhido diferente e melhor? Se durante a gestação a
mulher puder se preparar e olhar mais a fundo suas motivações
inconscientes, as marcas que ficaram de suas próprias vivências
com seus pais, isso poderá ajudá-la a tomar suas decisões
com mais consciência das conseqüências, com mais maturidade
e autonomia. E, quando falamos de parto, o que comumente acontece
é que muitas impressões a respeito do momento de parir são
transmitidas de mãe para filha, geração a geração. Poder olhar
para isso, para os mitos que herdamos da família ou da sociedade,
com certeza também irá auxiliar a fazer melhores escolhas
com relação ao parto e a ficar menos suscetível e vulnerável
às influências externas.
E mais: é preciso ter a consciência de que tudo isso se reflete
no corpo da futura mãe, portanto, mexer nessas questões psíquicas
implica também em mexer com o corpo dela, trazer a consciência
corporal. Por isso, atividades como yoga, massagem e respiração
ao longo da gestação ajudam muito a melhorar a qualidade dos
partos, especialmente se vierem associadas a um trabalho de
ampliação da consciência e à elaboração de questões psíquicas
e emocionais. Tudo o que favoreça à ampliação da percepção,
da sensibilidade, a conexão com o corpo, com os sentimentos,
a auto-observação, pode ajudar para que a experiência de parir
e de ser mãe possa se tornar cada vez mais consciente e responsável.
Quanto mais as mulheres puderem vivenciar com plenitude esses
momentos tão especiais de suas vidas, maior a possibilidade
de que as futuras gerações tenham esta vivência também modificada,
pela transmissão de novas experiências. |