A olhos vistos, e crescentemente, as mulheres estão retomando a conexão com seus poderes mais profundos e sutis. Algumas já voltaram a se organizar em círculo - forma de troca de informação sem hierarquia e democrático - para discutir sobre direitos da mulher, da Terra e de seus filhos; para encorajar as fêmeas a terem seus filhos com um mínimo de dignidade, se sentindo empoderadas via parto natural; outras sabem que amamentar é um ato de amor e que trazer os filhos pertinho, no babysling, forma seres seguros... E assim por diante...
Pois na segunda-feira antes do último Dia das Mães, em 5 de maio, as mulheres do planeta foram convidadas a celebrar o dom de menstruar, recuperando-o como arquétipo positivo da identidade de gênero. O evento acontece há oito anos e, agora em 2008, a terapeuta e jornalista paulista, Sabrina Alves, foi convidada pela pioneira DeAnna L'am a coordenar as movimentações na América do Sul.
Acompanhe o relato de Sabrina e de outras mulheres conectadas sobre o que viveram e sentiram neste dia especial.
 
SEGUNDA VERMELHA
Juntas em um só ventre e coração

Saudações, queridas mulheres guerreiras, jovens, mães, anciãs, bruxas e Deusas!
Pelo poder da sincronia da Teia da Grande Mãe, é uma maravilha do universo, neste momento, ser uma ferramenta para a grande REDE-REVOLUÇÃO FEMININA.
A campanha SEGUNDA VERMELHA surgiu dessa grande teia de comunicação subterrânea feminina. Com nome original em inglês “Menstrual Monday”, ou “Segunda Vermelha”, adaptado para o português, a campanha convoca a mulher contemporânea a participar ativamente de sua própria vida, redescobrindo e compartilhando com outras mulheres sua essência, empoderando-se e tornando-se uma forte agente transformadora de si mesma, de sua comunidade e do planeta.
A primeira vez que se comemorou foi em 2000, idealizado por Genebra Kachaman e Molly Strange. Elas arrumaram um jeito de incentivar as mulheres a ritualizarem suas menstruações e o fizeram com manifestações artísticas. Na época, a campanha teve adesão da França, Canadá, Escócia e Quênia. Kachaman e Strange diziam que a intenção da campanha era criar um senso de diversão em torno de menstruação; para encorajar as mulheres a assumirem a responsabilidade da sua menstruação e de saúde reprodutiva, para criar uma maior visibilidade da menstruação nos meios de comunicação social; e para reforçar a honestidade da menstruação em nossos relacionamentos.
Na realidade, a campanha foi um efeito contrário à grande quantidade de registros do chamado “choque tóxico” provocado pelos tampões internos, naquela década de 90, e por tudo o que ele representa para a mulher: vulnerabilidade, vergonha, invasão, agressão e uma infinidade de doenças arrebatadoras e outras tão silenciosas quanto fatais, como o câncer de útero. Os tampões vão bem, obrigada, e pra quem trabalha com saúde da mulher, como eu, sabe que o número de casos de “choques tóxicos” com tampões e absorventes descartáveis continua de vento em polpa, no mundo todo. Menos na Índia, porque lá elas nem sabem o que é isso. Bom, sorte a delas.

O movimento “Segunda Vermelha” parte de uma releitura dos aspectos femininos que se contrapõe ao movimento feminista da década de 70, onde os processos cíclicos da mulher foram caracterizados como uma desvantagem para a disputa com o homem pelo mercado de trabalho. Ele é fruto de novas perspectivas em relação à mulher e à natureza, o que ficou denominado como ecofeminismo, que revela um novo corpo feminino que se molda e vem surgindo em movimento de valorização dos aspectos e protagonismo femininos, revelando um enorme potencial das mulheres em mudar o curso da história. A campanha não pretende excluir o homem das novas atividades dessa nova mulher; ao contrário, é um chamado para valores como honra e respeito à diversidade, principalmente à multiplicidade dos aspectos da mulher.
O movimento teve como mote o dia das mães. Porque a menstruação vem antes da maternidade e, muitas vezes, depois dela também. E, na verdade, é a grande liga, o grande fio condutor da vida - o sangue. Mas eu queria dizer mais uma coisa sobre esta data escolhida para representar a Segunda Vermelha: inicialmente Julia Ward Howe criou o “Dia das Mães para a Paz” nos Estados Unidos. É, pois é, o dia das mães era político/espiritual. É verdade também que a visão oportunista americana o transformou em uma data “capitalistamercadológica”, porém vejo em nossas mãos a chance de redefinir esta data novamente.
O fato é que, nos anos que se seguiram, a campanha foi tomando forma. Silenciosa forma, é verdade, com alguns registros em outros países. E sempre comemorada, mantida e coordenada por Deanna L’am nos Estados Unidos. E, assim, por este sincronia do Universo e das Teias da Grande Mãe, conheci DeAnna L'am, pois partilharmos do mesmo estilo de trabalho. Ela compartilhou a proposta. Achei linda e viável. Convidou-me pedindo que eu coordenasse a campanha na América do Sul. Eu recebi. Gestamos. E, juntas com Danielle Sales, agilizando as traduções, co-criamos a vontade da Deusa manifesta em terras sul-americanas.

E foi assim como eu estou contando: falei com uma grande amiga circular argentina, Myrian Wingutov e sua “Rueda Púrpura”, para que se juntasse a nós. Ela amou a idéia e convocou suas hermanas. E lá, mais próximo dos Andes no Chile, “mi preciosa” Mahi e seu Circulo Matriztico. E aqui no centro do país, em Brasília, as lindas e queridas Melissas da Teia de Thea guiadas por Natália Carvalho. E a teia foi crescendo, nossa forte anciã Doroti Siqueira nos pampas gelados do Brasil com sua enorme receptividade reverberou junto; e pertinho, em São Paulo, minhas “hermanas circulares” Patrícia Fox, Babi Ferreira e Soraya Mariani... E aí, eu já não precisei mais convocar. Os círculos concêntricos foram atingindo outros círculos em São Paulo, no interior e na cidade, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e João Pessoa. E outras mulheres foram divulgando em seus blogs, sites, grupos de internet... E na SEGUNDA VERMELHA 2008 LATINA todas “vermelharam” juntas em um só ventre e coração.
A campanha pode tomar proporções que desconhecemos, em princípio, mas em nossas células mater está a visão acima dos acontecimentos. Eu creio nisso.

"Eu não me curo sozinha, eu me curo junto a outras irmãs."
Esta linda frase é de uma irmã muito querida do Chile, Canella, uma linda canalizadora de Danças Circulares, e este verso está em uma de suas músicas. Eu o escolhi para finalizar este relato da Segunda Vermelha 2008 porque, mesmo sabendo que ainda é preciso curar muito as relações entre as mulheres, principalmente entre as lideranças desse re-despertar feminino, onde é necessário cultivar trocas sadias de respeito à medicina de cada uma e à sua própria medicina, creio em uma linda e poderosa Teia Cósmica, e dou graças a esta poderosa e Velha Aranha que tece desde os recôncavos do meu Ventre e me mantém integra em meu propósito: tecer sempre!!!
A todas as mulheres que, ao tomarem conhecimento de seu Poder de Sangue, sentiram-se a mais poderosa Deusa dos mundos, minhas sinceras reverências.

Eu, Sabrina Alves, falei, AHOW!
With love, DeAnna L’am.

Relatos da Segunda Vermelha no Brasil
Babi Guerreiro - Tradutora
Foi maravilhoso!!!
Por ser segunda-feira, muitas das meninas do grupo de estudos pagão que organizo estavam trabalhando, então nos reunimos em cinco mulheres em lugar super aconchegante (as fotos logo estarão postadas em meu perfil), e foi maravilhoso, falamos sobre os mistérios e o poder da nossa menstruação, a importância de estar consciente em nossa condição de mulher, as meninas receberam o Ritual da Reconsagração do Ventre, adaptado do livro "Anuário da Grande Mãe", para que elas possam se reconectar com seu útero... Trocamos experiências a respeito do período menstrual... Resumindo, elas adoraram e eu também... Definitivamente quantidade não é qualidade... E as meninas que não foram já me contataram pra marcarmos outra reunião dessa... rsrs... Foi ótimo.

Soraya Mariani – Coordenadora da Cirandda da Lua
Cirandda da Lua agradece e honra inicialmente o Clã dos Ciclos Sagrados, em parceria com DeAnna L'am, pelo lindo projeto! Que possamos sempre fazer parcerias com objetivos tão nobres e necessários: "redescobrindo e compartilhando com outras mulheres sua essência, EMPODERANDO-SE e tornando-se uma forte agente transformadora de SI MESMA, de sua comunidade e do Planeta". Não conseguimos registrar todos os momentos, mas acreditamos que temos o necessário para aquecer e renovar o coração de nós, mulheres, que acreditamos e retomamos o modelo circular, a reverência à Terra e à Deusa, o respeito a nós mesmas e ao Círculo de Mulheres!

Daiana Gonçalves – Secretária e Artesã
A minha Segunda Vermelha foi especial. Como todas as outras segundas, mas com um ar de paz.
Acordei empolgada para colocar a blusa vermelha, fiz as unhas e passei esmaltes vermelhos, estou terminando um artesanato que comecei neste dia, fiz em vermelho também, conversei com uma amiga sobre a nossa primeira menstruação (lembro do dia, mês e ano certinhos, lembro que eu me sentia uma mulher toda poderosa... rs).
Quase não uso roupas vermelhas, então fui muito elogiada, foi especial mesmo...
A noite foi tranqüila, comi uma deliciosa massa com molho vermelho que eu mesma preparei - e olha que não sou de cozinhar! -, depois fiquei em meu quarto ouvindo música e lembrando coisas maravilhosas que já fiz.
Foi um dia todo especial pra mim, fiz uma visita ao passado para resgatar a pessoa que eu escondia com as repressões do dia-a-dia, e vi que preciso respeitar minhas vontades, parar de me repreender, isso me faz mal. Dormi super bem e acordei melhor ainda, estou me sentindo um pouco mais livre.
Como é bom ser mulher... Amo ler tudo que vocês escrevem, me faz bem.
"Sejas forte,
Sejas poderosa,
Sejas abençoada pelo poder de teu sangue."

Patricia Fox – Coordenadora da Hera Mágica
A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, ao montar o altar do círculo, a energia era de festa, uma festa de "meninas". Levei chocolates, balinhas de cereja, suco de uva e coisinhas doces...
A meditação de chegada (sempre faço uma bênção para que as mulheres adentrem na sala dos encontros) foi "chamando a menina interior". Pedi para que elas mentalizassem a si próprias com a idade em que tiveram a primeira menstruação... e, ao som do meu tambor, elas entraram no círculo.

Comentários das participantes:

- Citando outra deusa que serviu de inspiração no dia, as emoções naquele dia estavam aflorando do mundo invernal, ou seja, de PERSÉFONE... a deusa das sementes, a guardião da morte e da noite... e o que foi muito comentado no círculo era a sensação de "confusão, limitação e desapego do mundo infantil.

- O não poder brincar na rua, entrar na piscina, correr livre foi quase que um comentário geral das "meninas mais velhas". As mais jovens abordaram o tema com mais "naturalidade", mas senti que as gerações mais recentes estavam ainda mais distantes do sagrado. Senti que elas estavam mais "sozinhas" no processo, pois o tema já fazia parte do mundo delas, mas não de uma forma sacralizada (respeitosa), mas meio banalizada.
As reações das famílias no geral, foram positivas... mas algumas compartilharam a dor de não terem sido acolhidas nesse momento crucial feminino.
O mais interessante e, para mim um "presente", foi sentir que o círculo curou e equilibrou, senão totalmente, mas conseguimos transcender algumas dores, e a relação dessas mulheres com a menstruação ficou diferente... o olhar mudou de "incomodado" para "poderoso".
Uma frase que marcou, vinda de uma mulher que nunca tinha participado de um círculo de mulheres e se considerava pouco à vontade com sua feminilidade até então:
"De agora em diante vou ver minha menstruação como uma fase de potencial renascimento".

- Pra mim, como sempre, foi curativo... encontros como esses só me dão mais ânimo (alma) pra continuar nesse rio... que às vezes fica VERMELHO!

Celia Saugo no Blog Anfíbia - Coordenadora do grupo Centopéia
Não curti muito o atrelamento da data ao comercial dia das mães... mas de alguma forma tinha de ser 'ancorado' e não estou aqui pra criticar a iniciativa da sua criação. Qualquer reflexão que as mulheres se disponham a fazer no sentido de aceitarem e assumirem seu sangue, sua natureza de mulher, é um passo e é importante. Mas eu vou gostar mesmo quando cada mulher simplesmente deixar de ir trabalhar em todo primeiro dia de menstruação, num movimento silencioso de auto-respeito. São muito profundas as reflexões que podem vir com a Segunda Vermelha... Desejo que todas nós possamos meditar em nosso próprio sangue, nosso fluido vital e mágico, e ouvir toda a sua sabedoria.

Danielle Sales - Ciclos Naturais do Feminino – YahooGroups
Eu queria muito ter comemorado minha Segunda Vermelha em grupo, mas não foi possível. De manhã, coloquei uma blusa vermelha, um casaco vermelho e meu colar menstrual. Falei sobre a data com as colegas de trabalho e, à noite, fiz uma pequena meditação sobre a menstruação e tentei me conectar a todas as mulheres que estavam celebrando esta data, em círculo ou sozinhas, como eu.

Ghislaine Pelat na lista “Ciclos naturais do feminino”
Eu também comemorei a minha Segunda Vermelha.
Fui trabalhar de vermelho.
Conversei com uma das turmas que eu dou aula e foi muito legal!!
À noite, fui encontrar o "círculo da Lua" na Hera Mágica junto com algumas convidadas.
Foi muito bom compartilhar esse momento e refletir sobre muitas coisas que estão atreladas.
Postei foto e texto do que rolou lá no meu multiply (http://ghis.multiply.com).
Deleitem-se!
Beijinhos, Ghi

Agradecimento a Deanna L’am, Danielle Sales, Luciana Netto, Carla Lampert, Ricardo Martins, Gina Cloud, Miranda Gray, Anália Bernardo e ao Guia Vegano. Aos meus Círculos de Mulheres, “Clã dos Ciclos Sagrados” e “Círculo Sagrado de Visões Femininas”, pela união, confiança e amor. E também aos círculos que tão graciosamente aderiram, confiaram e registraram a comemoração da
Segunda Vermelha no Brasil: Teia de Theia, Hera Mágica, Clã Dança da Avó Lua e Cirandda da Lua.
Sigamos juntos reverberando em ventre, coração e espírito.

 
Sabrina Alves
Clã dos Ciclos Sagrados - “Mulheres em Círculo para honrar seus Ciclos
Jornalista, artista plástica e terapeuta
http://cladosciclossagrados.multiply.com
cladosciclossagrados@yahoo.com.br
SÃO PAULO/SP

Assessoria
DeAnna L’am
Moon Wisdom - http://www.deannalam.com

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