Por
que eu escrevo? Nunca tinha me feito essa pergunta, simplesmente
escrevia. Antigamente apenas para mim, como forma de desabafo
e para não sobrecarregar minha alma, dividia suas aflições,
dores, sonhos e amores com um papel - depois o guardava no
fundo de uma gaveta. Um certo dia, percebi que a gaveta estava
cheia: cheia de vida, de risos e lágrimas, de sensações
e momentos de muitos anos de minha vida, esquecidos e amarelados.
Poderia ter deixado ali, ter queimado, amassado... até
que minha mãe leu, depois minha irmã, amigas,
e para minha surpresa exclamavam: "Que lindo o que você
escreveu! Já me senti assim, você me descreveu
exatamente como sou, parece que foi escrito para mim",
etc... Então percebi que não estamos sós
em nossos sonhos, desejos e dores, muitos sentem parecido
e, em muitas vezes, não conseguem se expressar.
Precisamos nos identificar com alguma coisa, palavras que
reflitam o que anseia nossa alma, ou o que a acalme. Buscamos
almas afins para seguir juntos ou dividir momentos, músicas
com as quais nos identifiquemos, filmes, lugares que possam
nos transmitir algo. Resolvi, então, criar um blog
para expor, compartilhar, gritar o que minha alma sentia,
o que minhas mulheres e vivências anteriores guardavam
nos recônditos do meu ser, compartilhar tudo o que meus
olhos vêem, o que meu corpo sente, porque em tudo que
olho vejo poesia e beleza, em tudo há um ritmo, uma
melodia. Ou eu danço, ou escrevo ou crio alguma coisa.
Preciso de arte diariamente. Há muita vida e mistérios
por aí, simplicidades que passam desapercebidas de
nossos olhares, sempre sem tempo para contemplarem e admirarem
o que a Grande Mãe nos deu. Até uma folha vagando
solitária ao vento é poesia e um presente para
quem tem sensibilidade para perceber que tudo é simples
e perfeito, tudo tem seu tempo, tudo caminha para o melhor.
Eu só organizo tudo num papel.
Eu gosto das coisas simples, não gosto de complicar
nada. Cansei de usar máscaras, de guardar o que sinto
só para mim, me esconder por quê? Tudo isso faz
parte de mim, tudo isso sou eu. Por isso escrevo, na escrita
me dou por inteira, me sinto livre, posso ir ao passado, mudar
meu presente e criar meu futuro, ser eu mesma, ser outra,
ser todas. Assim me conhecem, assim me conheço melhor,
assim desafogo meu âmago, assim enriqueço meu
espírito, assim conheço almas afins, aprendo,
ensino, me surpreendo. Posso morrer, mas minhas palavras ficarão.
É isso que eu quero, ir e deixar um pouquinho de mim
aqui. Tudo é uma troca.Surpresa é meu blog já
passar de 55 mil visitas, de receber e-mails de gente do mundo
todo dizendo que, às vezes, estão tristes e
desanimados e entram em meu blog porque "ele passa uma
energia boa", porque escrevo o que sentem ou que eles
se inspiram nas minhas palavras. Muitas mulheres usam minhas
poesias em seus perfis no Orkut, várias me escrevem
dizendo que tal poesia parece ter sido feita para ela. Eu
não ganho dinheiro com isso, mas me sinto rica, feliz,
especial. E não estou fazendo nada, simplesmente sendo
eu mesma... E ser nós mesmos é surpreendente.
ETERNAMENTE AGORA
Tive o ímpeto de declarar
Com tenuidade
Mas me contive.
Nem tudo pode ser declarado...
Mesmo que camuflado entre as palavras.
Ele que me desvende.
Me descubra.
Me cubra.
Desvende todas minhas ruas
Enquanto tem acesso a elas...
Ele que tente.
Olhe através do véu.
Sinta minha essência.
Que me leve ao céu.
Perdoe a indecência.
Reconheça a inocência.
Descubra minhas mulheres...
O quão podem ser reles.
Que olhe meus cantos...
Pergunte dos meus sonhos.
Dos meus desejos reprimidos...
E pra que cada comprimido.
Porque choro escondido...
Que ele se aprofunde em mim.
Que ele me ame mesmo assim.
Que me queira de qualquer forma
E que sossegue comigo
Eternamente agora.
FEITIÇO
DA LUA
Lua cheia que me enfeitiça
Me deixa à flor da pele
Me ouriça, me atiça
Me queima por dentro e a pele fere.
Deixa-me cheia
Repleta
Deixa-me outra
Que não fica quieta
Acorda minha cigana
Desperta minha fera
Me tira da cama
Floresce minha primavera
Lua cheia sagrada
Cheia lua, safada
Me põe amada
Me deixa faminta
Me faz alucinada
E quer que eu minta
Por quatro luas resisti
Prendi minhas feras
Respirei fundo
Me omiti
Nessa lua soltei a mim
Soltei os cabelos
Soltei o vestido
Soltei o riso
Saltei do céu
Desfrutei o paraíso
Arranquei o véu
Me atirei aos leões
Às sensações
Tirei do peito desejos profundos
De minh'alma inquieta
De outros mundos
De outros eus
Ah, lua intensa
Qual é minha sentença
Por simplesmente ser assim
Fiel a minha natureza?
INSTINTO SELVAGEM
Te confessei minha fera
Tenho alma de felina sim.
Puma, leoa, pantera, lince.
Todas elas habitam em mim.
Tenho juba
Tenho força
Garra, cheiro de mata
Cheiro selvagem.
Tenho fome de vida
Instinto selvagem.
Te olho sedenta
Olho no olho
Fico de quatro
E solto minha juba
Te faço minha presa
Te amo sem pressa.
MOTIVO
A Grande Mãe em mim habita
E a vida cresce ao meu redor
As flores se abrem, os frutos amadurecem
Eu sou o centro do universo
Eu sou o poder que jamais enfraquece.
Eu sou a feiticeira antiga perseguida
A mulher das ervas, da lua, da dança
Eu sou a mulher temida na rua
A anciã, a jovem, a eterna criança.
Renasci de minhas cinzas
O corpo é frágil, a alma não.
Sou mulher guerreira, mulher de escolhas
O destino está na palma da minha mão.
Desertos solitários e quentes, noites
escuras, vendavais...
Não perco minhas diretrizes
Ou viemos da guerra morta de baixo de nossos punhais
Ou mais fortes em cima de nossas cicatrizes.
A Grande Mãe em mim habita
E todo amor hei de passar.
Não temerei, nem duvidarei
Hei de plantar e colher e amar.
E assim viverei meus dias
Sempre a vida celebrar.
NA JANELA
Sombras se escondem atrás do meu sorriso, eu mostro
somente o que quero. Sou u ma
janela translúcida, deixo a luz passar por mim e compartilho-a
com você, mas você não me vê. Não
sou nítida, mas deixo tudo evidente. Mas isso é
para quem sente e pesca no ar, pois as palavras enganam, as
imagens também, como um cigarro relaxa, e mata também....
Posso ser tanta coisa, e sou. Doce ou amarga, submissa ou
quem manda, posso lucilar ou ofuscar, dependo da lua, da temperatura,
da demanda. Tenho meus dias de Deusa, tenho noites mal dormidas,
mal comidas, noites de pesadelos, manhãs em que acordo
e me olho no espelho, branca, com olheiras, descabelada, e
me pergunto: Onde foi parar a Deusa da noite passada?
Ah, meu bem, eu sou o que sou, mas finjo também. É
preciso mistério e provocação, mostrar
o que se deve e ocultar o que não. Sou uma mulher incomum,sim,
mas veja que o comum está contido no “in”.
Há dias que serei cinza e em outros, carmim. Hoje estou
amarela, não me pergunte nada, sei que não gosto
de meio termo, mas hoje estou assim, nem em casa, nem na rua,
estou na janela.
DE MOLHO
Estou de molho... No meu inferno astral (dizem que dura um
mês até chegar seu aniversário), que período
esquisito esse, acontece de tudo e ao mesmo tempo não
acontece nada. Tudo fica lento, fora de controle, tudo se
dissolve e novas coisas surgem; resgates passados, pressões
futuras, loucuras presentes.
Estou tentando não enlouquecer nesse momento. Tento
escrever, criar, "desopilar", mas não dá.
Não sai nada... Onde foi parar a poesia? A inspiração,
a alegria? Minha mul heres
fugiram, deram as mãos. Só o que me acompanha
é a nostalgia. As palavras silenciaram dentro de mim.
O cabelo solto virou coque. Ando emburrada e com a unha clara.
Meu reflexo não é mais o mesmo, a gente muda
e não se dá conta, mas o importante é
não se perder, e acho que estou me perdendo...
Onde foram parar minha dança, meu riso, minha criança?
Deram as mãos para minha senhora forte e corajosa e
fugiram. A criatividade está dormindo, Afrodite, fingindo.
Minha guerreira baixou a guarda, a cigana baixou a saia. Como
posso ser eu se estou me dissolvendo? Estou comportada, quieta
e sofrendo. Sim, é possível, Deusas também
choram... Poetas também se calam, mulheres lindas têm
crises e borboletas enfraquecem.
Estou de molho, e vou ficar até enrugar os dedinhos...
Quanto mais tempo de molho, melhor o caldo.
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