CAROLINA SALCIDES
 
Fada aluada, blogueira competente
Darks, cutes, patys, clássicas, urbanas, sensuais... As fadas invadiram o cyberespaço, páginas e páginas eletrônicas com borboletas, dríades e cor-de-rosa são coloridos sintomas de que o mundo feminino quer se reconectar com sua própria mística.
A poeta gaúcha Carolina Salcides parece ter chamado para si esta tarefa. Em início de carreira, tendo publicado por enquanto somente em antologias, Carolina criou um blog de poemas em 2005, especializado na temática das fadas e no arquétipo básico da mulher poderosa e selvagem. Resultado: no ano seguinte, sua página foi premiada duas vezes em primeiro lugar em concursos específicos de blogs do tema, vencendo 50 concorrentes. Seu espaço já ultrapassou 57 mil visitas e seus poemas fazem parte de mais de 90 perfis de mulheres cadastradas no Orkut.
A convite do Absoluta, a blogueira conta o que a leva a escrever. Confira também uma amostra do seu trabalho, que inclui também outros blogs, um de prosa poética e outro de mística feminina.
 
 

Por que eu escrevo? Nunca tinha me feito essa pergunta, simplesmente escrevia. Antigamente apenas para mim, como forma de desabafo e para não sobrecarregar minha alma, dividia suas aflições, dores, sonhos e amores com um papel - depois o guardava no fundo de uma gaveta. Um certo dia, percebi que a gaveta estava cheia: cheia de vida, de risos e lágrimas, de sensações e momentos de muitos anos de minha vida, esquecidos e amarelados. Poderia ter deixado ali, ter queimado, amassado... até que minha mãe leu, depois minha irmã, amigas, e para minha surpresa exclamavam: "Que lindo o que você escreveu! Já me senti assim, você me descreveu exatamente como sou, parece que foi escrito para mim", etc... Então percebi que não estamos sós em nossos sonhos, desejos e dores, muitos sentem parecido e, em muitas vezes, não conseguem se expressar.
Precisamos nos identificar com alguma coisa, palavras que reflitam o que anseia nossa alma, ou o que a acalme. Buscamos almas afins para seguir juntos ou dividir momentos, músicas com as quais nos identifiquemos, filmes, lugares que possam nos transmitir algo. Resolvi, então, criar um blog para expor, compartilhar, gritar o que minha alma sentia, o que minhas mulheres e vivências anteriores guardavam nos recônditos do meu ser, compartilhar tudo o que meus olhos vêem, o que meu corpo sente, porque em tudo que olho vejo poesia e beleza, em tudo há um ritmo, uma melodia. Ou eu danço, ou escrevo ou crio alguma coisa.
Preciso de arte diariamente. Há muita vida e mistérios por aí, simplicidades que passam desapercebidas de nossos olhares, sempre sem tempo para contemplarem e admirarem o que a Grande Mãe nos deu. Até uma folha vagando solitária ao vento é poesia e um presente para quem tem sensibilidade para perceber que tudo é simples e perfeito, tudo tem seu tempo, tudo caminha para o melhor. Eu só organizo tudo num papel.
Eu gosto das coisas simples, não gosto de complicar nada. Cansei de usar máscaras, de guardar o que sinto só para mim, me esconder por quê? Tudo isso faz parte de mim, tudo isso sou eu. Por isso escrevo, na escrita me dou por inteira, me sinto livre, posso ir ao passado, mudar meu presente e criar meu futuro, ser eu mesma, ser outra, ser todas. Assim me conhecem, assim me conheço melhor, assim desafogo meu âmago, assim enriqueço meu espírito, assim conheço almas afins, aprendo, ensino, me surpreendo. Posso morrer, mas minhas palavras ficarão. É isso que eu quero, ir e deixar um pouquinho de mim aqui. Tudo é uma troca.Surpresa é meu blog já passar de 55 mil visitas, de receber e-mails de gente do mundo todo dizendo que, às vezes, estão tristes e desanimados e entram em meu blog porque "ele passa uma energia boa", porque escrevo o que sentem ou que eles se inspiram nas minhas palavras. Muitas mulheres usam minhas poesias em seus perfis no Orkut, várias me escrevem dizendo que tal poesia parece ter sido feita para ela. Eu não ganho dinheiro com isso, mas me sinto rica, feliz, especial. E não estou fazendo nada, simplesmente sendo eu mesma... E ser nós mesmos é surpreendente.

 

ETERNAMENTE AGORA
Tive o ímpeto de declarar
Com tenuidade
Mas me contive.
Nem tudo pode ser declarado...
Mesmo que camuflado entre as palavras.
Ele que me desvende.
Me descubra.
Me cubra.
Desvende todas minhas ruas
Enquanto tem acesso a elas...
Ele que tente.
Olhe através do véu.
Sinta minha essência.
Que me leve ao céu.
Perdoe a indecência.
Reconheça a inocência.
Descubra minhas mulheres...
O quão podem ser reles.
Que olhe meus cantos...
Pergunte dos meus sonhos.
Dos meus desejos reprimidos...
E pra que cada comprimido.
Porque choro escondido...
Que ele se aprofunde em mim.
Que ele me ame mesmo assim.
Que me queira de qualquer forma
E que sossegue comigo
Eternamente agora.

FEITIÇO DA LUA
Lua cheia que me enfeitiça
Me deixa à flor da pele
Me ouriça, me atiça
Me queima por dentro e a pele fere.
Deixa-me cheia
Repleta
Deixa-me outra
Que não fica quieta
Acorda minha cigana
Desperta minha fera
Me tira da cama
Floresce minha primavera
Lua cheia sagrada
Cheia lua, safada
Me põe amada
Me deixa faminta
Me faz alucinada
E quer que eu minta
Por quatro luas resisti
Prendi minhas feras
Respirei fundo
Me omiti
Nessa lua soltei a mim
Soltei os cabelos
Soltei o vestido
Soltei o riso
Saltei do céu
Desfrutei o paraí­so
Arranquei o véu
Me atirei aos leões
Às sensações
Tirei do peito desejos profundos
De minh'alma inquieta
De outros mundos
De outros eus
Ah, lua intensa
Qual é minha sentença
Por simplesmente ser assim
Fiel a minha natureza?

INSTINTO SELVAGEM
Te confessei minha fera
Tenho alma de felina sim.
Puma, leoa, pantera, lince.
Todas elas habitam em mim.

Tenho juba
Tenho força
Garra, cheiro de mata
Cheiro selvagem.
Tenho fome de vida
Instinto selvagem.

Te olho sedenta
Olho no olho
Fico de quatro
E solto minha juba
Te faço minha presa
Te amo sem pressa.

MOTIVO
A Grande Mãe em mim habita
E a vida cresce ao meu redor
As flores se abrem, os frutos amadurecem
Eu sou o centro do universo
Eu sou o poder que jamais enfraquece.

Eu sou a feiticeira antiga perseguida
A mulher das ervas, da lua, da dança
Eu sou a mulher temida na rua
A anciã, a jovem, a eterna criança.

Renasci de minhas cinzas
O corpo é frágil, a alma não.
Sou mulher guerreira, mulher de escolhas
O destino está na palma da minha mão.

Desertos solitários e quentes, noites escuras, vendavais...
Não perco minhas diretrizes
Ou viemos da guerra morta de baixo de nossos punhais
Ou mais fortes em cima de nossas cicatrizes.

A Grande Mãe em mim habita
E todo amor hei de passar.
Não temerei, nem duvidarei
Hei de plantar e colher e amar.
E assim viverei meus dias
Sempre a vida celebrar.

NA JANELA
Sombras se escondem atrás do meu sorriso, eu mostro somente o que quero. Sou uma janela translúcida, deixo a luz passar por mim e compartilho-a com você, mas você não me vê. Não sou nítida, mas deixo tudo evidente. Mas isso é para quem sente e pesca no ar, pois as palavras enganam, as imagens também, como um cigarro relaxa, e mata também....
Posso ser tanta coisa, e sou. Doce ou amarga, submissa ou quem manda, posso lucilar ou ofuscar, dependo da lua, da temperatura, da demanda. Tenho meus dias de Deusa, tenho noites mal dormidas, mal comidas, noites de pesadelos, manhãs em que acordo e me olho no espelho, branca, com olheiras, descabelada, e me pergunto: Onde foi parar a Deusa da noite passada?
Ah, meu bem, eu sou o que sou, mas finjo também. É preciso mistério e provocação, mostrar o que se deve e ocultar o que não. Sou uma mulher incomum,sim, mas veja que o comum está contido no “in”. Há dias que serei cinza e em outros, carmim. Hoje estou amarela, não me pergunte nada, sei que não gosto de meio termo, mas hoje estou assim, nem em casa, nem na rua, estou na janela.

DE MOLHO
Estou de molho... No meu inferno astral (dizem que dura um mês até chegar seu aniversário), que período esquisito esse, acontece de tudo e ao mesmo tempo não acontece nada. Tudo fica lento, fora de controle, tudo se dissolve e novas coisas surgem; resgates passados, pressões futuras, loucuras presentes.
Estou tentando não enlouquecer nesse momento. Tento escrever, criar, "desopilar", mas não dá. Não sai nada... Onde foi parar a poesia? A inspiração, a alegria? Minha mulheres fugiram, deram as mãos. Só o que me acompanha é a nostalgia. As palavras silenciaram dentro de mim. O cabelo solto virou coque. Ando emburrada e com a unha clara. Meu reflexo não é mais o mesmo, a gente muda e não se dá conta, mas o importante é não se perder, e acho que estou me perdendo...
Onde foram parar minha dança, meu riso, minha criança? Deram as mãos para minha senhora forte e corajosa e fugiram. A criatividade está dormindo, Afrodite, fingindo. Minha guerreira baixou a guarda, a cigana baixou a saia. Como posso ser eu se estou me dissolvendo? Estou comportada, quieta e sofrendo. Sim, é possível, Deusas também choram... Poetas também se calam, mulheres lindas têm crises e borboletas enfraquecem.
Estou de molho, e vou ficar até enrugar os dedinhos... Quanto mais tempo de molho, melhor o caldo.

 

Carolina Salcides
Poeta e Acadêmica de Letras
kabutterfly@hellokitty.com
Porto Alegre/RS

Blogs
http://www.fadasepoesias.blogspot.com
http://www.borboletamistik.blogspot.com
http://lunati-ka.blogspot.com
http://www.sitedepoesias.com.br/poetas/kabutterfly

Comunidade no Orkut
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=6057870

Publicou também em
http://www.recantodasletras.com.br/autores/kabutterfly
http://www.gargantadaserpente.com/autores/carolina_salcides.shtml
http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?
id_autor=3068&flag=nacional
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=1649

Coletâneas “Mosaico” e “Caleidoscópio”
Editora Andross
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