CAROLINA SALCIDES
 
São tantas, mas provocantemente únicas
Apaixonadas, feridas, mães, amantes: mulheres vão além das barreiras, sempre. Voam de dia, enfeitiçam de noite, são ciganas, não têm raiz, espalham suas sementes por terras, seu perfume pelos ares, espalham seu amor pelo mundo, são provocantemente únicas, dançam, cantam enquanto arrumam a casa, celebram pequenos detalhes, admiram a lua. Elas se dividem, elas possuem muitas mulheres dentro delas. E é preciso conhecer e aceitar cada uma.
Esse é o tom com que fala a poeta Carolina Salcides quando quer levar sua voz às mulheres modernas e a seus homens mais antenados. Depois de participar de algumas antologias, a escritora gaúcha está estreando em vôo próprio pela Editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores com "O Vôo da Borboleta - Nas Fases da Lua". Seus poemas focam a temática das fadas e o arquétipo da mulher poderosa e selvagem, trajetória que foi consolidando ao editar seu premiado blog, criado em 2005. De tom intenso e moderno, sua poesia cria sintonia e identificação com muitas mulheres, e chega a ser citada hoje em dezenas e dezenas de perfis orkutianos.
Mas, virginiana multitalentosa, Ká Butterfly – como gosta de ser chamada – também sabe atuar com talento e veemência nas praias da prosa, como se pode conferir nos trechos que Absoluta publica aqui, antes que esse outro sonho se transforme em livro.
 

MINHAS HORAS

A luz e a sombra estão em mim, preste atenção aos ponteiros do relógio, às estações do ano e nas fases da lua. Saberás quando serei minha e quando serei tua. Saberás quão forte brilha meu sol e sorriso, terás o calor, o corpo e o amor na medida em que abrires teus olhos ao sutil. "O essencial é invisível aos olhos"... Os detalhes sempre passam despercebidos e são eles que no fundo contam, são eles que derrubam ou levantam.
O ponteiro na hora certa faz trepidar meu relógio, me faz despertar ecoando o canto das sereias e te conduzir a lugares nunca antes revelados. Meu corpo é um relógio, uma bomba, uma rosa.
A sedução e o mistério te atraem, sei que primeiramente vens pelo meu brilho e pelo meu desenho de fêmea, mas não sabes que sou alma antiga, alma guerreira, alma ferida. Tenho meus medos, fraquezas e fúrias... São tantas as minhas ruas e todas elas se encontram. Por quais queres andar, que horas, que lua, que mulher vais querer?
Acharás o caminho da cura, do prazer, da liberdade, mas todos eles te guiarão à perdição. Não voltarás, não quererás voltar... E, se regressar ao teu mundo, não serás mais o mesmo: não desejarás pouco, minutos não serão suficientes, desenhos, curvas e brilhos serão ilusórios. Buscarás uma mulher para todas as horas, para todos os caminhos e prazeres, para teus risos e lágrimas, para teu corpo, sexo, mundo... E, segundamente, virás... Não pela magia cintilante e curvilínea, mas pela essência antiga e pontual de uma mulher para todas as tuas horas .

ROSA

Para me amar é só começar, para manter-me em teu canteiro é só regar. Estarei sempre bela rosa lá; até o dia em que não estarei mais. As lágrimas em rosas murchas servem apenas para virar arte, tocam a alma mas não reavivam a lenta morte.
Seca estarei aos poucos se teus ventos não me sacudirem, seca estarei se teu sol e tua chuva em mim não mais tocarem. Admirar é fácil, prender também, mas por pouco tempo, pois meus espinhos te ferirão e minhas pétalas uma a uma cairão por entre teus dedos.
Cultive o amor como cultivas uma rosa. É preciso paixão e maestria, paciência e ousadia. A rotina morna mata lentamente e minhas queixas virarão prosa.
Ame-me com a fúria de um mar em dia de tempestade, morda minhas costas como um leão faminto e me leve ao parque para sentar ao teu lado na grama. Serei tua cúmplice de banheiro, companhia de cozinha, parceira de aventuras e tua amante na cama; a Deusa, a bruxa a mucama.
Esteja atento aos sinais, meu bem... Sinta meu corpo, meu beijo, decifre meu olhar. Estarei sempre exalando para ser cheirada, sempre rubra para ser notada, sacudirei cabelos e pétalas, dançarei ao som do vento para que me queiras, usarei a melhor seda para te celebrar.
Ame-me como sou, ame o melhor e o pior de mim, eu sei quem sou e não minto; porque mentir para si mesma é como a rosa querer acreditar que não tem espinhos.

FEMININO PLURAL

Uma fada é uma mulher e uma mulher é uma fada e mais tudo que quiser. Uma mulher não é só ela, só uma. Uma mulher não se define. É um ser sublime, indefinível... Uma mulher tem muitas faces, muitas vidas dentro dela, muitas fases e amores. Tem também muitas dores e muita garra, cabelos, pele... Muitos olhares (num deles você se perde)... Porque ela é o caminho e também a perdição. Ela é pura química, magia, alquimia... Ousadia! Ela é intuição, feitiço, furacão. Possui muitas definições, qualidades, defeitos, atribuições. Uma mulher não é simples. Nem por dentro nem por fora.
Uma mulher é virgem, mártir, santa ou bruxa ou todas elas ao mesmo tempo. Uma andarilha sempre em busca, uma guerreira sempre em luta. Luta por si mesma, por suas crias, amores. Luta por seu mundo. Dia a dia, a cada segundo. Sua busca é eterna, mulheres nunca estão satisfeitas. Sempre há algo a fazer, a aprender... Amor para dar, buscar ou compartilhar. Possuem uma capacidade de dar sem pedir nada em troca, um amor sem limites. Mulheres não possuem limites... Vão além das barreiras, sempre. A apaixonada, a ferida, a mãe, a amante. Não há ruas sem saída para essas mulheres.
As mulheres possuem asas, por isso as chamo de fadas, porque encantam, porque sempre vão além, porque são belas. Mas são bruxas também, voam de dia, enfeitiçam de noite, são ciganas, não têm raiz, espalham suas sementes por terras, seu perfume pelos ares, espalham seu amor pelo mundo, são provocantemente únicas, dançam, cantam enquanto arrumam a casa, celebram pequenos detalhes, admiram a lua.
Elas se dividem, elas possuem muitas mulheres dentro delas. E é preciso conhecer e aceitar cada uma. Uma mulher que se conhece e se permite vai em busca do prazer completo, do amor ilimitado, da paixão que cruzou seu caminho... Uma mulher que se permite, ousa, arrisca e acredita. Vai em busca de sua natureza, de sua essência. Ela busca o verdadeiro. Justificando assim sua existência.

 

Carolina Salcides
Poeta e Acadêmica de Letras
http://www.fadasepoesias.blogspot.com
http://lunati-ka.blogspot.com
kasalcides@yahoo.com.br
Porto Alegre/RS

Fotos
http://lunati-ka.blogspot.com