Fazer arte é se conhecer a
si mesma.
Pela arte, mulheres encontram muitas dentro de si.
Como a pintora Eleonora Graebin conta aqui. Aos poucos, espontaneamente,
de seus pincéis começaram a brotar arquétipos
de deusas antigas, ciganas dançantes, fadas, mulheres
que fazem oferenda...
Eleonora trabalha com oficinas de pintura, desenho, modelagem
e materiais expressivos com foco na auto-expressão,
criatividade e desenvolvimento de potenciais, e nos relata
a partir de suas próprias vivências como a arte
não requer habilidades especiais e como pode ser reveladora
e libertadora. No caso dela, trabalhando com arquétipos
femininos, a arte ainda incorpora qualidades lunares.
Quando uma menina quer brincar mas não tem companhia,
o que pode fazer?
Criar um mundo mágico.
E foi assim que o trabalho criativo entrou em minha vida.
Desde criança, sempre estive acompanhada de pincéis,
tintas, papéis coloridos... Fazia fantoches, roupas
de bonecas, desenhava tudo o que via, tudo o que imaginava.
Mais tarde, acrescentei a possibilidade de ser arte-educadora
e levar esse mundo criativo para as salas de aula.
Desenho, pintura, modelagem... Expressar-se pela arte é
comprender os momentos da vida, é conhecer-se. E quem
se conhece, encontra o seu equilíbrio, vive a meditação
ativa quando entra em sintonia com a sua produção,
tem a mente quieta e o coração tranqüilo.
Através da arte podemos representar simbolicamente
nossas experiências. É uma atividade que possibilita
expressar o nosso espaço interior de forma não-verbal,
sem julgamentos, sem censuras. Permite organizar o campo interno,
possibilitando à pessoa ver-se em suas diferenças.
Participar de uma oficina de artes, pintar, conhecer uma variedade
de materiais - aquarela, lápis de cor, tinta a óleo,
construir formas com papel maché... - não exige
habilidades especiais como pode parecer, pede apenas que a
pessoa permita-se vivenciar o seu processo criativo. O crescimento
sempre vem. É altamente recomendável arriscar-se
no mundo das artes e poder usufruir os processos criativos.
Utilizo preferencialmente a pintura como modalidade expressiva
pessoal. Gosto da rapidez do processo, da leveza dos movimentos,
dos pincéis cheios de cores que me permitem construir
o que quiser... A pintura materializa... e, assim, pode ser
ter apêutica
e muito criadora . É um meio fluente, corporal, a imagem
se forma com facilidade.
E foi de forma espontânea que comecei a pintar figuras
femininas referenciadas na mitologia, antigas deusas, mães,
protetoras, possuidoras de alguma energia que eu necessitava
naquele momento e, então, quando percebi, estava trabalhado
com diferentes imagens do feminino, com os arquétipos
de velhas deusas que nos habitam, fazem parte dos sótãos
escuros e empoeirados, lá sentadas em antigas cadeiras,
algumas em sono profundo, esperando para serem libertadas.
E, a cada imagem, fui trazendo para a consciência algum
aspecto que estava esquecido. Da primeira, uma Diana pintada
há uns 5 anos (Ártemis, a mulher criativa que
necessita de espaço para expressar-se... alguma relação?),
até hoje, vários arquétipos foram emergindo,
no seu próprio tempo, e à medida que o meu feminino
se refletia ali na pintura, facetas, partes de mim se movimentavam...
As mitologias me interessam e, a partir de uma sincronicidade
astrológica, pintei a Lilith, a minha própria
sombra! Lilith representa a parte que nos custa ver e assumir
e, quando se expressa, traz muita energia de transmutação,
e possibilita que novos talentos venham à tona. Pintei
também a Laksmi, aquela que, quando aparece, os jardins
florescem, a deusa hindu da fertilidade e manutenção
da vida. E outras, as ciganas dançantes, a fada, a
mulher que faz oferenda, desconhecidas, mas que vêm
agregando qualidades, liberando forças e contribuindo
na expressão de qualidades próprias do universo
feminino.
É pessoal, mas faz eco em outras pessoas, mulheres
e homens. Entendendo que quando trabalhamos com a energia
dos arquétipos do feminino nos valoramos, conseguimos
nos ver melhor, integramos corpo e imagem, enxergamos a nossa
beleza única e, assim, podemos apreciar a especial
beleza do outro. Estamos evidenciando o feminino e incorporando
qualidades lunares neste mundo tão solar. |