A mulher está dividida ao meio.
Pelo menos, segundo a ótica da nossa sociedade moderna,
erguida sob valores machistas e maniqueístas. Já
viramos o milênio mas, bem no fundo, nossa cultura freqüentemente
ainda reduz papéis femininos apenas às polaridades
de santas ou prostitutas.
Quem nos fala a respeito é a escritora portuguesa Rosa
Leonor, que estréa no Absoluta com contundência,
mostrando que a ideologia dominante nunca vê as mulheres
nos eixos centrais das sociedades enquanto mães, irmãs
e amantes na qualidade vibracional de sacerdotisas da Deusa.
Na juventude, Rosa Leonor foi simpatizante da causa comunista,
o que lhe valeu ter de fugir para Paris. Revolucionária
por natureza e autodidata, publicou seu primeiro livro de poemas,
MULHER INCESTO, em 1996. Em 2003, publicou ANTES DO VERBO ERA
O ÚTERO, numa edição do Projecto Art for
All (http://www.art-for-all.com/Artforall.swf).
Em 2002, criou seu espaço na web, MULHERES & DEUSAS,
que atualiza diariamente com textos de profunda identificação
com o Feminino Essencial e que, só no primeiro ano, recebeu
mais de 13.000 visitantes. |
“O feminismo pega fogo quando
se nutre de sua espiritualidade inerente. Quando não
o faz, é apenas mais uma forma de política,
e a política nunca alimentou as nossas carências
mais profundas.”
Carol Lee Flinders, At The Root of This Longing
As nossas carências mais profundas… é
disso justamente que se trata, mas não só das
nossas carências mais profundas e, sim, principalmente
da profundidade do nosso Ser e da nossa Alma. Trata-se da
profundidade e da dimensão do nosso Ser ligado a essa
espiritualidade inerente a esse feminino verdadeiro, o das
profundezas.
Não se trata pois e apenas da afirmação
social ou psicológica da mulher que os múltiplos
e variados conceitos dividem em estereótipos e que
as religiões divulgaram acerca da natureza fragmentada
da mulher. Não se trata da procura sistemática
dos sistemas políticos para branquearem e destruírem
a plenitude do seu poder interior, e essa espiritualidade
inerente a todas as mulheres, e de que as feministas à
partida não se deram conta. Porque não se trata
de conseguir um lugar de chefia nem um salário igual
que dará dignidade à
mulher nem a restituirá a sua dimensão do sagrado,
cuja noção de transcendência falta à
política, como é óbvio, e as religiões
só tratam de tabus e do dogma contra a mulher.
Mas é o fogo interior do feminino, esse fogo que se
nutre de uma essência feminina verdadeira e a sua ligação
à Terra e à Deusa Mãe, da qual emerge
o seu poder como mulher capaz, uma vez na posse da sua totalidade,
amar integralmente e ser mãe, de dar à luz e
iluminar os homens dando-lhe a conhecer o seu feminino também
- o que as religiões patriarcais procuraram a todo
o transe apagar da história da humanidade, tal como
o fizeram denegrindo a imagem de Maria Madalena, como iniciadora
e amante, transformando-a em pecadora, e elevando posteriormente
a imagem da Virgem imaculada, dividindo assim a Mulher real
na sua função erótica e maternal, como
bem convinha aos padres do deserto e do seu deus misógino.
Dessacralização da
mulher e do sexo - Na realidade, a política
e os políticos, tal como as ideologias ou mesmo as
revoluções, nunca foram além do simples
remediar das diferenças sociais e econômicas
das mulheres, mas jamais lhes deram ou restituíram
o legítimo lugar que lhes cabe no Centro das sociedades
como Mães, irmãs e amantes, como sibilas e sacerdotisas
da Deusa. Pelo contrário, todas elas alimentaram esses
estereótipos degradantes das duas (várias) mulheres
e contribuíram para acentuar a divisão entre
o erótico e o maternal, na divulgação
da pornografia e da prostituição, acicatando
as mulheres umas contra as outras, construindo e divulgando
as figuras de esposa e prostituta como ainda hoje ostentam
nos cabeçalhos dos seus jornais e noticiários
como escândalos mundanos na risível queda de
um “anjo”, como foi o caso do mayor de
Nova Yorke… o homem "virtuoso" e moralista
que engana a mulher “séria” e esposa legítima
(a humilhada…) com a prostituta famosa…
E é pela sua própria voz McInerney que diz…
"A prostituta não é uma ameaça à
estabilidade institucional e emotiva do matrimônio.
Pelo contrário, historicamente sempre o reforçou"…
que nós nos apercebemos como essa divisão histórica
é ainda inquestionável e assente como regra
das sociedades “civilizadas” e que continua a
dividir as mulheres em duas espécies… Agora,
o que não compreendo é que as próprias
mulheres aceitem passivamente e contribuam também para
essa divisão sem consciência da sua própria
divisão interior e continuem a antagonizar umas com
as outras, prejudicando o seu trabalho, como é o caso
das eco-feministas, por exemplo...
Mais à frente, no mesmo artigo, lemos: “As diversas
igrejas sempre toleraram as prostitutas” - elas não
só toleraram como as implementaram e contribuíram
ao longo dos séculos para que a mulher continuasse
dividida entre a esposa (católica) e a prostituta (não
católica)…
As feministas nunca se aperceberam da questão fulcral
dessa divisão em si mesmas, e defendem até a
profissionalização do sexo, o que é continuar
a aceitar a sua divisão intrínseca e a dessacralização
da mulher e do sexo, que é matriz do nexo… Só
por isso, eu não sou feminista… mas defendo de
alma e coração a Essência do Feminino
como ponto de partida para uma verdadeira Consciência
do SER MULHER. Em busca da Mulher Absoluta. |