Ser mulher é quase um sinônimo de cuidar.
Mas o mundo de hoje agregou outras diversas funções
ao dia-a-dia feminino e, como afirma a psicóloga Juliana
Garcia nesta reflexão, “nesse afã de ser
mulher-maravilha, perdemos nossas forças pouco a pouco.
Essa síndrome de carregar o mundo nas costas provoca
muitas dores, e precisamos delas cuidar, antes de tentar cuidar
do outro. Senão, entramos em outras síndromes,
entre elas a de depender da dependência que o outro tem
de nós, ou a da culpa por não darmos conta de
sermos tudo e um pouco mais”.
Juliana realiza encontros vivenciais em Belo Horizonte, em parceria
com Ana Carolina Peixoto, também psicóloga, num
grupo voltado para mães, pais e cuidadores que queiram
cuidar de suas relações familiares começando
pelo cuidado consigo. |
Quantas de nós aprenderam desde cedo a ser mulher
pela via do cuidado com o outro? Muito cedo ganhamos brinquedos
que são também símbolos do cuidado, somos
incentivadas a nos comportar e a nos relacionar sob o prisma
dessa temática.
Cada uma de nós também carrega em sua história
modelos, nem sempre os mais saudáveis, e convivemos
com maneiras muito diferentes de lidar com esse campo das
relações. Isso se refere também aos homens,
que recebem influências diversas, e formamos, juntos,
todo um arcabouço de maneiras social mente
estabelecidas de lidarmos com a questão do cuidado
e dos papéis, expectativas, cobranças daí
advindos.
Nós, mulheres, nas últimas décadas ganhamos
outros espaços além do doméstico, mas
muitas outras responsabilidades também foram acrescidas
à nossa lista de afazeres e preocupações.
Muitas mudanças sociais se deram e não se pode
mais falar em família como um só modelo, mas
sim em famílias, devido às diferentes formas
de organização existentes - mães que
cuidam sozinhas de seus filhos, avós que criam netos,
casais que se formam após um divórcio e que
trazem seus filhos de outras relações para viverem
juntos, casais homossexuais que adotam filhos, tios que vivem
junto com os avós e criam conjuntamente com estes as
crianças, os filhos dos filhos, etc.
Mesmo com tantas mudanças, ainda permanecem modos antigos
de definições de papéis - aí que
muitas coisas costumam se embolar. Mensagens do tipo "que
menino (a) sem limites", "assim você traumatiza
a criança", "não se pode dizer tudo
a uma criança", "não se pode esconder
nada dos filhos" confirmam que "ser mãe é
padecer", mas não se sabe bem se é "no
paraíso". Padecimento num jogo para o qual parece
não haver saída. "Se ficar o bicho pega,
se ficar o bicho come"... Mas existem outras possibilidades:
"se enfrentar o bicho some" é uma delas.
Encarar a humanidade do processo nos permite olhar o outro
que está sob nossos cuidados reconhecendo nele fraquezas
e também potencialidades. Assim como nós, que
somos humanas, com as dores e as delícias de o ser.
Apostando na incapacidade do outro também estamos nos
tornando incapazes, na medida em que empreendemos a caçada
pela satisfação plena do desejo do outro.
Não está em nossas mãos, nem nas mãos
de ninguém, tal tarefa.
Nesse afã de ser mulher-maravilha, perdemos nossas
forças pouco a pouco - ou muito a muito, considerando
o sem-fim de coisas que vamos fazendo sem escutar o que há
de mais profundo em nós.
Essa síndrome de carregar o mundo nas costas provoca
muitas dores e precisamos delas cuidar, antes de tentar cuidar
do outro. Senão, entramos em outras síndromes,
entre elas a de depender da dependência que o outro
tem de nós, ou a da culpa por não darmos conta
de sermos tudo e um pouco mais.
Para cuidar do outro é preciso cuidar de nós
mesmas e da nossa maneira de cuidar. Redundante? Na verdade,
é um ciclo. Um ciclo virtuoso, onde cada conquista
nos leva a um novo passo. Sem esse cuidado, que passa por
olhar e dar atenção à nossa experiência,
isso se torna um ciclo vicioso, onde todos os envolvidos se
enfraquecem e ninguém se relaciona verdadeiramente. |